16 março 2025

Dois séculos depois, Camilo ainda vive?


Camilo Castelo Branco nasceu faz hoje 200 anos. Será que os seus livros ainda cativam leitores? E esses leitores serão de uma faixa etária mais velha ou os jovens ainda se conseguem deixar agarrar pela sua escrita? Penso que tudo dependerá de como é feita a primeira abordagem. Imaginemos que alguém abre ao acaso “O Amor de Perdição” e lê o início do Capítulo VIII, não se deixaria levar?

“…Mariana, a filha de João da Cruz, quando viu seu pai pensar a chaga do braço de Simão, perdeu os sentidos. O ferrador riu estrondosamente da fraqueza da moça, e o académico achou estranha sensibilidade em mulher afeita a curar as feridas com que seu pai vinha laureado de todas as feiras e romarias.

– Não há ainda um ano que me fizeram três buracos na cabeça, quando eu fui à Senhora dos Remédios, a Lamego, e foi ela que me tosquiou e rapou o casco à navalha – disse o ferrador. – Pelo que vejo, o sangue do fidalgo deu volta ao estômago da rapariga!... Estamos então bem aviados! Eu tenho cá a minha vida, e queria que ela fosse a enfermeira do meu doente.... És, ou não és, rapariga? – disse ele à filha, quando ela abriu os olhos, com semblante de envergonhada da sua fraqueza.

– Serei com muito gosto, se o pai quiser.

– Pois então, moça, se hás-de ir costurar para a varanda, vem aqui para a beira do senhor Simão. Dálhe caldos a miúdo, e tratalhe da ferida; vinagre e mais vinagre, quando ela estiver assim a modo de roxa. Conversa com ele, não o deixes estar a malucar, nem escrever muito, que não é bom quando se está fraco do miolo. E vossa senhoria não tenha aquelas de cerimónia, nem me diga à Mariana – a menina isto, a menina aquilo. É – rapariga, dá cá um caldo; rapariga, lavame o braço, dá cá as compressas e nada de políticas. Ela está aqui como sua criada, porque eu já lhe disse que, se não fosse o pai de vossa senhoria, já ela há muito tempo que andava por aí às esmolas, ou pior ainda. É verdade, que eu podia deixarlhe uns benzinhos, ganhos ali a suar na bigorna há dez anos, afora uns quatrocentos mil réis que herdei de minha mãe, que Deus haja; mas vossa senhoria bem sabe que, se eu fosse à forca ou pela barra fora, vinha a justiça, e tomava conta de tudo para as custas…”

In “Amor de Perdição” Capítulo VIII 

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