Na sequência dos posts anteriores
aqui e aqui, deixo hoje os últimos excertos do capítulo dedicado à minha Freguesia Carcavelos. E hoje falamos de vinhos…

“… O sítio de Carcavelos, dilatado pelas colinas ribeirinhas do Tejo e do Oceano, tem as melhores condições orográficas, geológicas e climatéricas, para produtor de vinhos.
Já no século XVII os vinhos de Carcavelos haviam fama no País. Generosos carregados na cor, trepadores, e com bouquet característico. Vinhos que mereceram a Filinto a ode consagradora:
“Rapaz, deita mais vinho
Vê se inda achas do doce Carcavelos
Garrafa nalgum canto”
A sua área de produção é reduzida. Fora dela, o vinho verde perde as qualidades essenciais. Não vai além de duas léguas quadradas. Aí o produto afina-se. Não é um Madeira, nem um Porto. É um Carcavelos. Dezassete graus de graduação alcoólica, com a sua cor, o seu paladar, o seu aroma particulares. A Duquesa de Abrantes, mas suas “Memórias”, ao referir-se a este vinho, diz várias vezes “… ce delicieux vin du Carcavelos…”.
…..
O Marquês de Pombal criou a marca oficial dos vinhos de Carcavelos e colocou-a no plano dos vinhos do Porto e da Madeira.
Os ingleses tomaram-lhe o gosto pela mesma época em que o bebeu a Duquesa de Abrantes – durante a guerra peninsular. Wellington teve o seu quartel-general, largo tempo, nas famosas linhas de Torres, região onde fica metida a área produtora do “Carcavelos”. A guerra forçava toda a gente a dispor, apenas, dos recursos da região mais vizinha. Os oficiais ingleses privados do seu amado Porto, provaram o “Carcavelos”. Provaram e gostaram. No regresso à Ilha Inglesa, falaram e gabaram este vinho que a guerra lhes fizera descobrir.

…
O “Carcavelos” viajou muito. Chegava dantes a toda a parte. Oh! Como ele era belo. Quando nos aparecia numa garrafa de gargalo torcido, coberta de pó. A rolha quase desfeita e com um rótulo de papel de costaneira onde simplesmente se lia, em caracteres desbotados pelo tempo, a palavra Cracavelos, o que era um dos maiores indícios da sua pureza. O tempo altera todas as coisas. Emendou-se a ortografia e perdeu-se o vinho …”
in “Memórias da Linha” de Branca de Gonta Gonçalo e Maria Archer
E assim fica a minha sugestão para o fim-de-semana: tentem encontrar uma garrafinha de Carcavelos e saboreiem-no de forma especial. Mas se não for Carcavelos, pode ser um Moscatel, um Muralhas, um JP…. Há muitos e bons vinhos portugueses por onde escolher!
Tenham um bom fim-de-semana!